Quando o Céu se Cala
"Os meus olhos estão ofuscados de tanta tristeza. A ti, Senhor, clamo dia após dia; a ti ergo as minhas mãos." (Salmos 88:9)
Há salmos que terminam com vitória, e há salmos que terminam com silêncio.
O Salmo 88 é um desses. Não há virada, não há “todavia”, não há “contudo” que alivie a dor. O salmo simplesmente termina na angústia, e talvez seja exatamente isso que o torna tão verdadeiro.
Hemã, seu autor, era um homem sábio, profeta, músico e levita. Servia a Deus com fidelidade, liderando louvor no templo, acompanhado por seus filhos e filhas. Ainda assim, ele escreveu um dos cânticos mais sombrios das Escrituras. Isso nos mostra que a dor e a fé podem habitar o mesmo coração.
Há quem veja nesse salmo uma voz messiânica, e faz todo sentido. Assim como Cristo, Hemã sente o abandono de Deus, o peso da morte e o silêncio do céu. O salmo não precisa de um “final feliz”, porque aponta para Aquele que enfrentaria as trevas sem resposta, para que nós tivéssemos esperança.
Mas há algo ainda mais precioso: mesmo na ausência, Hemã continua orando.
Ele questiona, lamenta, protesta, mas fala com Deus.
Não corre para longe, corre para perto.
Mesmo sem consolo, continua dizendo: “Senhor, Deus da minha salvação”.
A fé dele não se apoia em sentir Deus, mas em conhecer Deus.
O Salmo 88 termina com a frase: “As trevas são a minha única companhia”.
Mas logo depois vem o Salmo 89, escrito por Etã, talvez seu amigo ou parente, dizendo: “Cantarei para sempre as misericórdias do Senhor.”
Um termina na noite; o outro amanhece em adoração.
É como se Deus dissesse: “Espere só um pouco. O cântico ainda não acabou.”
Assim é a vida do cristão: há momentos em que o céu parece calado, o corpo cansado e a alma ferida. Mas é justamente nesses dias que o relacionamento com Deus precisa ser mais forte que as emoções.
Mesmo quando o mal parece vencer, quando a esperança parece morrer, quando o silêncio pesa, o crente continua falando com Deus.
Hemã nos ensina que a oração é resistência, e que o amor a Deus não depende das respostas que recebemos, mas da certeza de que Ele continua sendo o mesmo, mesmo quando não fala.
Ore, mesmo quando o céu estiver de bronze.
Clame, mesmo sem sentir resposta.
E espere, porque o Salmo 89 sempre vem depois do 88.
Deus nunca está ausente, às vezes, só está em silêncio.

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